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Apresentamos um dos momentos marcantes do lançamento do título Histórias que fugiram das árvores, da autora Susana Neves, que foi o discurso entusiasmante e envolvente da Prof. Ruth Huber:

Hoje é um dia muito especial, um dia feliz, um pouco como se fosse Natal. Hoje é o dia em que um desejo longamente alimentado, longamente acarinhado e amadurecido finalmente se realiza, concretizando-se neste belíssimo objecto, nesta prenda que é o livro da Susana Neves. E felizes nós de podermos, neste Ano Internacional da Floresta, aprofundar com a autora os saberes sobre estes seres silenciosos e, no entanto, tão exuberantes de beleza e generosidade, de podermos beber neste livro, fonte inesgotável de conhecimento botânico, medicinal e cultural e deliciarmo-nos com as fotografias maravilhosas que nos fazem descobrir a árvore em todo o seu esplendor. Este livro tem, de facto, o esplendor da – quase – perfeição, perfeição essa à qual, segundo diz a tradição judaica, o ser humano não deve aspirar, para que Deus Nosso Senhor não fique ciumento e se queira vingar, porque a perfeição só a ele Lhe cabe.

Mas Ele não se vai enfurecer, porque este livro é uma homenagem vibrante à grande amiga de deuses e humanos que é a Árvore, o ser por excelência que liga o Céu e a Terra, sendo ao mesmo tempo Árvore Cósmica, Árvore da Vida e Axis Mundi. Para nós, seres humanos, ensina-nos a verticalidade, estando ao mesmo tempo profundamente enraizada na terra e aberta ao céu. As árvores, tantas vezes menosprezadas e maltratadas, são um património cultural de primeira importância, e não é só pelo seu valor paisagístico ou recreativo que devemos ajudar a conservá-las e valorizá-las. Diz-se, e com razão que, quando morrerem as árvores, o género humano já não terá condições para sobreviver no nosso planeta. As histórias da Susana também alertam para isto; cada uma merece ser relida e nela ser meditado, sendo cada uma delas uma pequena jóia, um texto que relemos com prazer renovado.

Considero que apresentar ou “lançar” um livro – será que se diz “lançar” para que o livro, graças ao ímpeto do lançamento, possa entrar na sua órbita ou trajectória? –, considero que este lançar deve ser um louvar, uma laudatio. Uma laudatio em que quero incluir as instituições e as pessoas – as boas fadas do livro – que contribuíram para a sua beleza e perfeição: a Editora By the Book, a gráfica Peres-Soctip, o tradutor Miguel de Castro Henriques, a INATEL, sem esquecer os patrocinadores que, todos eles, contribuíram com o seu empenho, o seu entusiasmo, a sua determinação e a sua arte para trazer à luz o livro sonhado.

Diz-se que um sonho sonhado por muitos sonhadores se torna realidade. O meu sonho pessoal em relação a este livro começou há muitos anos, quando me tornei sócia da INATEL e passei a receber a revista Tempo Livre onde descobri uma crónica intitulada “A Casa na Árvore” que logo me cativou. Talvez porque na minha infância, nós, as crianças, na época do Verão, fabricávamos casas na árvore, construções precárias, castelos no ar, feitas de velhas tábuas e trapos e onde nos refugiávamos. A autoridade dos pais não chegava lá, estávamos fora do seu alcance, extraterritoriais, pertencendo a um reino onde a soberania era toda da árvore.

Na casa na árvore eu estava fora do tempo e do mundo, a observar a vida dos outros seres que partilhavam comigo esse mesmo reino, sentindo-me em paz, ao abrigo da árvore, e intuindo quanto as árvores são generosas, misteriosas e amigas. Não deve ter sido por acaso que um dos mais belos poemas de língua alemã foi escrito pelo jovem Goethe numa casa na árvore, escrito com lápis na parede de madeira e só muito mais tarde publicado. E foram estas memórias felizes que surgiram quando, sentada à sombra da ramagem na “Casa na Árvore” da Susana, me deliciava a ler as boas folhas da nova crónica em que ela, graças ao seu retrato sempre luminoso e poético, me fazia conhecer uma nova amiga. Assim, voltava às árvores da minha infância, embalada por Georges Brassens que tão bem diz: “Auprès de mon arbre, je vivais heureux, j’aurais jamais dû m’éloigner de mon arbre; auprès de mon arbre, je vivais heureux, j’aurais jamais dû le quitter des yeux.”

Nessa altura, não conhecia a Susana, não sabia quem era a autora das crónicas, e foi uma árvore, o Lódão ou Príncipe Discreto que, gentilmente, nos aproximou e se fez mensageiro e intermediário – outra história que fugiu das árvores.

Assim, estes textos cumpriram uma das mais nobres funções da escrita, a de ir ao encontro de um amigo. Diz o poeta Manuel Gusmão: “Se se perceber que a palavra ‘amizade’ não tem nada a ver com o clã, com os amigalhaços, diria que nós escrevemos como quem tenta produzir uma amizade. Uma amizade com amigos que já conhecemos, sejam próximos ou longínquos, com amigos que não conhecemos e talvez venhamos a conhecer, e com um amigo que virá e que nunca conheceremos. É um outro que não conseguimos vislumbrar, mas ao encontro de quem vamos.”

E deixem-me dizer algumas palavras sobre aquilo que distingue estes textos que a autora chama histórias, e com razão. Há muito tempo que nós convivemos, as árvores e os humanos, e temos uma longa história em comum, feita de um sem-número de histórias que nós, os humanos, contamos sobre e vivemos com as árvores. No entanto, ignoramos infelizmente as histórias que as árvores contam de nós. A árvore, nesses tempos, não era uma simples amiga ou uma planta útil em termos medicinais ou nutricionais, ou ainda um fornecedor de materiais de construção – era um ser poderoso, mágico, sagrado, dotado de poderes específicos e variados. O amor à árvore podia tornar-se uma paixão: conta Plínio que o padrasto de Nero se apaixonou por uma faia particularmente bela e costumava deitar-se, encostar-se ao pé dela, abraçá-la e beijá-la e, requinte dos requintes, regá-la com vinho. Mas a história de amor acaba mal. A esposa, ciumenta e furiosa, mandou matar o marido dendrófilo. No entanto, e mesmo que esta paixão pareça absurda à mente racional dos modernos, o casamento místico entre árvores e humanos é um costume que encontramos não só na Índia dravidiana – subsistindo até aos nossos dias em certas tribos –, mas também no Punjab, nos Himalaias, entre os índios sioux e em certas etnias africanas.

Este tecido de histórias e vivências em comum que une os homens e as árvores perdeu-se quase por completo na prosa científica dos nossos dias que costuma apresentar uma acumulação de factos cientificamente comprovados. Os textos da Susana recuperam a narrativa e constroem sentido, na medida em que os factos são integrados de forma sempre sensível, coerente e poética, subordinando-se ao fio narrativo e desenhando o retrato da personalidade única e específica da árvore em questão. Ela torna-se uma pessoa, e é assim que se pode tornar uma amiga. Em cada história que a autora nos conta, o leitor experiencia o prazer da narrativa que o texto científico deixou de ter, o prazer de um conhecimento que é ao mesmo tempo factual e sensual, documental e poético, de carne e osso, se assim posso dizer. Porque tal como dançar, cantar e fazer música, também contar histórias é, nas culturas humanas, uma constante antropológica. Não existe nenhuma cultura em que os humanos não contem histórias. O homo sapiens, dizem os antropólogos, é um homo narrans – e narrar provém da raiz verbal sânscrita jña, conhecer. Além das palavras da família de “narrar”, da mesma raiz também derivam palavras cultas como “gnose”, “gnóstico”, assim como a palavra “ignorância”, e o verbo inglês “to know”.

O que é que esta etimologia nos ensina?

Ensina-nos que a melhor maneira de transmitir conhecimento é contar uma história. A história é o “formato” mais amigo do cérebro por ser perfeitamente adaptado aos processos neuronais. Contribui para integrar novos elementos nas redes neuronais já existentes e é também a forma que gera mais prazer por estar mais próxima da oralidade. Quanto mais, quando se trata de transmitir conhecimentos sobre árvores na nossa cultura, cultura judaico-cristã cujo mito fundador é a Árvore do Conhecimento bíblica! Feliz o leitor que vai beber nestas narrativas um saber que, ao mesmo tempo que alimenta a curiosidade intelectual, aquece o coração.

E que dizer das fotografias? Um puro milagre de sensualidade e beleza! Fotografias tão maravilhosas que mesmo na reprodução não perdem a sua aura, o seu esplendor cromático! Este conjunto de fotografias transporta-nos literalmente, é um “convite para a viagem”, um convite que, tal como o poema Invitation au Voyage de Baudelaire, nos leva para um reino de “ordem e beleza” onde a natureza é soberana e onde

“… tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.”

Songe à la douceur d’aller là-bas vivre ensemble…”, sussurra-me o poema – e é isso mesmo que acontece com estas fotografias: a Susana pega-me pela mão e faz-me entrar num sonho que se resume assim: “E se voltássemos de vez a viver junto às árvores, junto à Natureza, para sempre?”

A magia destas fotografias talvez consista também num facto paradoxal que é o seguinte: a fotógrafa tem plena consciência de que a árvore viva, vibrante de vida, não pode ser reproduzida pela imagem, ou corre-se então o perigo de representar uma forma morta, mera superfície visível que corresponde àquilo que o olhar distraído vê. Ignora então o essencial, ou seja, a alquimia do laboratório vivo, a fantástica dinâmica energética que a árvore, na realidade, é. Eis o desafio ao qual responde esta fotógrafa de excepção: tornar visível aquilo que, à primeira vista, não se vê. A Árvore na sua vida misteriosa, a Árvore sensual e luxuriante, a Árvore grande sedutora, a Árvore modista e costureira, a Árvore devoradora de luz e rainha de sombras, a Árvore cintilante, rutilante, a Árvore elefante, o riso da Árvore, a dança da Árvore, a Árvore na surreal magia da sua majestade.

É difícil concluir, apetece-me dizer simplesmente: “obrigada, Susana, por nos oferecer tanta beleza”, obrigada às fadas, obrigada às árvores. Agradeço também o apoio nem sempre pacífico do meu gato na redação deste texto. A sua garra foi decisiva na hora de terminar que coincidiu com o momento que ele considerou ser a hora do seu jantar. Também ele é um grande amigo das árvores, pois, sem elas, como é que ele entraria no reino dos pássaros? E daí se conclui quão generosa e imparcial é a amizade das árvores: oferecem-se da mesma maneira a uns e outros, sem tomar partido, convidando-nos a todos a entrar e morar na sua casa.

Lisboa, 4 de Dezembro de 2012

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