por momentos, o B.I. dum outro…

Ao chegar à Batalha procurei lugar para estacionar o carro mas enervado com o atraso entrei mosteiro adentro e parei no primeiro espaço disponível.

No regresso, um polícia esperava para me identificar. Assimilar um documento plastificado com o seu possuidor tentando chegar a uma conclusão é obra mas o cívico, de sermão bem decorado, pronto me respondeu pretender verificar o conjunto de dados – nome, idade, naturalidade e a respectiva foto… que permitem determinar a minha identidade, acrescentando que tudo isso constava do B.I.!

Duvidei das conclusões dado que para ser idêntico o plastificado teria de manter as características do seu possuidor mas o guarda, na sua função de agente identificador ali estava para verificar se o papel era de facto identificador da pessoa. Ainda insisti na data de emissão e na fotografia não estar lá grande coisa… mas enfim, pelo menos tinha óculos.

Argumentei que identificar-se também quer dizer adaptar-se, ajustar-se e que o B.I. poderia não se ajustar bem a mim mas eu estar adaptado ao mesmo. Um ‘veja lá bem no que se mete!’ retornou-me à realidade.

De acordo com o agente, papel e pessoa em carne e osso tinham de condizer apesar dele próprio admitir que o seu B.I. pecava na foto e ‘olhe, nem o meu pai é o que vem no B.I…. mas isso é uma outra história…

O almoço espreitava abreviando a inquirição. Recuperei o meu B.I., o guarda recomendou-me mais atenção no futuro e mandou-me seguir. Tirei então o carro de cima do túmulo do Soldado Desconhecido.

 ‘- Com este, acrescentei, é que o senhor guarda ia ter problemas de identificação’ mas ele informou-me que quando se tratou de identificar o soldado, o identificador entendeu que o mesmo não era identificável mas como era idêntico aos demais mortos vindos de França, meteu idem em todos e enterrou um à sorte. Este, disse o guarda, é idem aos outros mas no mosteiro é conhecido por Zé Manel concluindo que… ‘hoje em dia isto da identidade… então com a internet, que anda cheia de anónimos…’

Deixei o mosteiro mais o não-identificado Soldado Desconhecido e ao chegar a Lisboa entreguei o B.I. ao Raúl Veríssimo que mo emprestara dias antes, dado eu não saber do meu, ter de ir à Batalha em serviço e poder ter problemas de identificação com a polícia tal como sucedeu.

Pedro Castro Henriques, Abril de 2017

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