Discurso de Pedro de Azevedo no lançamento do livro Uma Paixão, Livros e Manuscritos: Catálogo Comentado, da autoria de António da Cunha Reis:

Conheci o António na década de 1990, quando ele começou a frequentar os meus leilões, primeiro na fase dos Silva’s, na Lapa e depois no Hotel Amazónia, nas Amoreiras.

Rapidamente me apercebi de que o António era um comprador muito bem informado, que se destacava não só pelo sua invulgar bagagem cultural, que se reflectia, aliás, nas suastemáticas preferidas, como também pela seu elevado grau de exigência relativamente à qualidade dos exemplares que ia adquirindo.

A partir de então, começámos a conversar com frequência e, a pouco e pouco, a ver-nos com alguma regularidade, não só nos leilões, mas também em eventos sociais e reuniões com amigos comuns.

Foi assim que surgiu a nossa amizade.

E é também para isto que servem os livros.

Relativamente ao projecto do livro, posso dizer que o acompanhei desde a sua génese, datando de meados de 2014, as nossas primeiras conversas sobre o assunto.

Efectivamente, foi em Setembro desse mesmo ano que recebi o primeiro mail do António, comunicando-me da sua intenção (e passo a citar):

de publicar um trabalho acerca de alguns livros da minha colecção [e de], a propósito de cada um deles, escrever um texto sobre o seu autor, o conteúdo da obra, a importância que teve na época, as curiosidades que possa suscitar, as características da sua impressão, etc.

[…] e acaba dizendo

Tinha muito gosto em que participasse nesta obra na qualidade que entender. (fim de citação)

Depois de mentalmente ter eliminado algumas das referidas qualidades, cheguei à conclusão de que a minha ajuda poderia eventualmente ser-lhe útil, mas apenas na qualidade de livreiro-antiquário e, ainda assim, como iremos ver, de forma muito limitada.

Juntamente com o mail, o António enviava-me uma extensa lista com 71 impressos e 9 manuscritos. Os textos eram de 1ª qualidade, ultrapassando mesmo não só as minhas espectativas mais optimistas mas até os objectivos propostos por ele próprio.

De início, limitei-me a rever os textos que o António me ia enviando, à procura de eventuais gralhas, e a adiantar algumas sugestões sobre a estrutura genérica das fichas, prestando especial atenção à uniformização das descrições bibliográficas

e outros aspectos mais técnicos.

Mas cedo me apercebi de que a determinação do António, conjugada com a sua sólida bagagem cultural, eram garantes mais do que suficientes para que ele encarasse o seu projecto com a segurança de quem domina o assunto, dispensando contributos externos mais significativos.

Passaram-se alguns anos e, recentemente, o António voltou a dar-me notícias do seu projecto, revelando que tinha retomado o trabalho, desta vez com o firme propósito de concluir o seu livro.

Finalmente, em Outubro do ano passado, o António voltou a falar-me no assunto, renovando o amável convite para que eu prefaciasse a sua obra.

Um mês depois o prefácio estava pronto.

Quais foram então as linhas mestras que procurei transmitir neste pequeno texto introdutório:

Em primeiro lugar, uma exposição da génese e acompanhamento do projecto tal como acabei de apresentar nesta curta síntese inicial.

Seguidamente, um breve enunciado sobre algumas obras congéneres escritas por bibliófilos e coleccionadores portugueses, que vos convido a ler, se é que ainda não o fizeram. São apenas oito: três na segunda metade do século XIX, duas em todo o século XX, mais três no decurso do século XXI.

Posso-vos garantir que a leitura destas obras é extrememente gratificante e revela muito da personalidade dos respectivos autores, bem como da natureza da verdadeira bibliofilia.

Por último, como não podia deixar de ser, procurei fazer uma sucinta análise da obra do António, centrando-me nas raízes próximas e profundas que o levaram a escrever o seu livro.

É já um lugar-comum dizer-se dos bibliófilos que o segundo maior prazer que retiram dos seus livros, depois de os adquirir e possuir, é o de falar sobre eles.

O António não foje à regra. Escrever sobre os seus livros, tenho a certeza, foi para ele, um exercício de enorme satisfação pessoal.

Mas, mais forte do que esta efémera permissa, situa-se uma razão mais profunda: a da partilha com os leitores, com a família, com os amigos e com os vindouros, do fascínio que o fez passar horas sem fim no isolamento apenas aparente das suas duas bibliotecas: a de sua casa, em Paço d’Arcos e a de Braga, da Casa Cunha Reis.

Um outro propósito, de grande nobreza, aliás, é-nos revelado pelo próprio António, na introdução que faz à sua obra: o de homenagear seu Pai, Joaquim Firmino da Cunha Reis, sua Mãe, Maria Edith Braga de Araújo e por extensão — acrescentamos nós — todos os seus antepassados que, nos últimos 250 anos, contribuiram de forma esclarecida para a constituição do fundo antigo da Biblioteca da Casa Grande de Braga.

E, para terminar, permitam-me recorrer a uma citação do período com que encerro o meu prefácio:

Mas há ainda um outro sentido, não expresso, quase subliminar, que não pode nem deve deixar indiferente o leitor mais atento, sensível e perspicaz. Dos desenvolvidos e minuciosos comentários com que o António nos brinda ao longo das 217 obras que seleccionou para nos apresentar, transparece um sentimento não despiciendo que temos o dever de enaltecer e realçar, especialmente nos conturbados tempos que estamos a viver: um inequívoco e genuíno orgulho de ser Português.

Muito obrigado, António, por partilhar conosco a sua Paixão pelos livros e manuscritos.

E mais uma vez Parabéns.

Muito obrigado pela vossa atenção.

Lisboa, 16 de Abril de 2026

Pedro de Azevedo

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